O ERRO NOSSO DE CADA DIA

            Quem nunca teve que se controlar para não rir após ouvir uma grande asneira, daquelas que a gente não sabe se fica com dó ou raiva do sujeito que a proferiu? Quando a intimidade permite, podemos até corrigi-lo, não sem antes dar umas boas gargalhadas. Lamentavelmente os pecados cometidos contra nossa querida língua portuguesa não fazem distinção de classe social, credo ou raça; e o que é mais triste, nem de formação cultural.

            Tem muita gente que vai ao dentista para distrair um dente, ou ao banco para assustar um cheque, joga lixo em terreno Valdir e embrulha presentes com papel iluminado, pois fica mais bonito. Nem os ditados populares escapam de transformação; há quem mate dois coelhos com uma caixa d’água ou se refira a algo como uma faca de dois legumes. Mas são pessoas do povo, só não digo que a voz do povo é a voz de Deus porque neste caso seria uma tremenda heresia.

            Mas os erros absurdos de linguagem não são monopólio das pessoas simples, que podem se defender com o argumento de que tiveram uma precária formação escolar; até entre pessoas consideradas intelectualizadas tornou-se comum o uso expressão a nível de como se ela fosse correta. Tem publicitário que diz que vai vincular um anúncio ao invés de veicular. É um hábito comum entre os locutores e comentaristas esportivos dizer que um atleta ou uma equipe esportiva precisa correr atrás do prejuízo. Eu, ao contrário, prefiro correr somente atrás do lucro.

            Tenho um amigo cujo primo é insuperável na tarefa de produzir insultos ao nosso querido idioma. Já quis mandar um rabanete de flores para a namorada, certa vez ficou preocupado porque um familiar iria ter que tirar uma topografia da cabeça; como muita gente, tem medo de chuva de granito e é aquele tipo de pessoa que não faz muita questã de falar corretamente.

            Minha irmã contou que numa conversa entre ela, minha cunhada e a esposa de um primo, experimentou uma situação constrangedora. Minha cunhada estava organizando um vernissage e perguntou se minha irmã gostava, ela respondeu que sim; ao fazer a mesma pergunta à esposa de meu primo, ela respondeu:

“Não sei, nunca comi”.

 

            Contou meu irmão que durante uma festa em uma fazenda, conversava com uma garota que falava com muito orgulho da propriedade de sua prima, a anfitriã:

“Esta casa, quem projetou foi um famoso arquiteto, e os jardins foram feitos pelo Boulevard”.

            Mas quando estamos entre íntimos, nada nos impede de gargalhar à vontade. Sei de um rapaz que foi motivo de chacota por muito tempo graças a uma pequena confusão com o nome de um animal. Estávamos andando em uma mata fechada perto da cidade de Campinas, quando o rapaz, que havia se antecipado ao grupo na exploração do terreno, surgiu ofegante. Ao perguntarem o motivo de seu nervosismo ele disse que acabara de ver uma sirigaita. Não entendemos porque ele ficaria assustado, mulherengo que era; só então concluímos que na verdade ele havia visto um siri-ema.

            Numa festa, onde uma mulher dançava freneticamente, como que possuída por uma força diabólica, ouvi alguém comentar que ela estava com a pomba rola. Não demorei em intuir que ela queria dizer pomba-gira. Uma amiga, certa vez numa praia, disse que estava com vontade de dar uma volta de caíque. Rapidamente a corrigi, observando que ela queria andar de caiaque; até onde vai meu conhecimento, Caíque é nome próprio e não de embarcação. Esta mesma amiga, soube alhures, estava à procura de um presente para sua sobrinha em uma viagem à Itália; por não falar uma palavra em italiano ela simplesmente disse:

“Eu queria comprar uma bonequinha para sua sobrinha”.

Falou a frase em perfeito português, mas tentando imitar um sotaque italiano. Jura ela que a vendedora compreendeu-a perfeitamente.

As confusões quando nos aventuramos em outros idiomas é fonte inesgotável de situações cômicas. Após ter pedido um doce em um estabelecimento nos Estados Unidos, uma amiga defrontou-se com os limites de seu inglês ao desejar acrescentar canela ao seu doce. Por não saber a tradução de tal ingrediente, apelou para a mímica, ajudante de todos nós nessas situações. Não teve dúvida, levantou a barra da calça e mostrou a própria canela. Soube de um sujeito que apelou para a mímica de uma maneira bem ridícula. Desejava comer frango, mas não sabia como pedir no idioma local; começou então a imitar o bater de asas de uma galinha com seus braços e a cacarejar como tal.

 

            A língua espanhola, por sua semelhança com o português, leva-nos a cometer pequenos erros sem que notamos. Um amigo perguntou a um colombiano se ele não tinha medo da escuridon, foi rapidamente corrigido e aprendeu que o certo é oscuridad. Tem gente que pede café de la mañana ao invés de desajuno. Infeliz foi a situação de um brasileiro que perguntou onde havia um orelhon, quando estava precisando usar um telefone público.

            Eu mesmo passei por uma situação semelhante, felizmente estava sozinho. Visitava um museu em Florença, na Itália, quando li em uma tabuleta na parede: “1° Piano”. Subi as escadas imaginando encontrar um pelo piano, mas só encontrei quadros e esculturas, como no resto do museu. Consultei o dicionário e constatei que piano em italiano significa andar, pavimento.

            Um americano em visita ao Brasil, após comer dois cachorros-quentes, recorreu ao dicionário para saber o valor que deveria pagar. Imaginou ele em sua língua natal: “how much”, procurou cada uma das palavras: how = como, much = muito. Arriscou então:

 “Como muito”.

“Já percebi”. Respondeu o vendedor.

            Nem em Portugal estamos livres de situações comprometedoras. Uma amiga estava sentada em um restaurante a espera de sua refeição; incomodada com o vento que insistia em soprar a toalha de papel sobre a mesa, pediu um durex para o garçom, para fixar a toalha à mesa. O garçom olhou com espanto e ela não compreendeu o motivo, tampouco foi atendida em seu pedido. Soube depois que durex é uma marca de preservativos na Europa, e não de fita adesiva.

            E quando se trata de uma figura pública, seja artista, político, esportista ou empresário? A imprensa não perdoa e todos parecem explorar a situação ao máximo. Rogério Magri, ministro do trabalho do governo Collor, disse que o plano econômico do então presidente era imexível. O falecido presidente do Corinthians Vicente Mateus era insuperável em produzir besteiras de grosso calibre. Sobre a possibilidade da venda do jogador Biro Biro, ele comentou:

“Biro Biro é invendável, inegociável e imprestável”.

 

     Com o tempo, as histórias reais envolvendo Vicente Mateus passaram a disputar espaço com as anedotas. Circulam até hoje, passados anos de sua morte, estórias (ou seriam histórias) das mais engraçadas. Numa visita a Paulo Maluf, incomodado com a demora em ser atendido, ele protestou. A secretária de Maluf tentou acalmá-lo:

“Primeiro o prefeito vai receber as pessoas que vieram de Brasília”.

“Mas eu vim de Mercedez” protestou o cartola.

Uma que consta ter acontecido realmente é do agradecimento que fez a Antartica por ter fornecido algumas Bhramas para um churrasco do Corinthians; para seu infortúnio tudo foi registrado pela imprensa. Mateus já chegou a dizer que quem está na chuva é para se queimar e que havia uma meia dúzia de três ou quatro pessoas querendo prejudicar seu clube; tudo diante de jornalistas munidos de gravadores e câmeras de TV. A imaginação popular entrou em ação e ele virou personagem de inúmeras piadas, aqui vai uma delas:

Havia na casa de Vicente Mateus, uma pequena estátua de Napoleão sobre a geladeira da cozinha. Em uma visita a França, conversando com o presidente Miterrand, ele começou a elogiar o país que visitava; falou da importância da cultura francesa, sua requintada culinária, seus perfumes e de sua história:

“Admiro muito a França, teve o maior general da história, o general, general, general...” diante da dificuldade em lembrar o nome de Napoleão, sua esposa, que o acompanhava, tentou socorrê-lo:

“Lembra da geladeira, Vicente”.

“O General Eletric” completou Mateus.

            Nesta balança de confusões, existe um grupo cada vez maior, disposto a carregar o prato da realidade para que ele fique mais pesado que o da ficção. Já ouvi alguém dizer que tinha um nome a lazer. Um cunhado meu, após visitar o irmão em Salvador, na Bahia, disse orgulhoso a um colega que tinha um sobrinho soteropolitano; o colega perguntou se aquilo tinha cura. Fui apresentado a um alemão que se orgulhava de falar vários idiomas, dizia se um autêntico troglodita.

 

     A época em que mais ouvi comentários hilários em minha vida foi durante a Faculdade. Talvez por se tratar de um curso de Publicidade e Propaganda, fecunda era a mente de meus companheiros de sala. Havia uma garota, filha de alemães, que tinha orgulho de suas origens; disse ela certa vez durante uma aula:

“Sou uma autêntica ariana”.

“E eu sou uma autêntica sagitariana”. Retrucou uma outra, por sinal ela era especialista em errôneas interpretações, achava que desenho animado tinha este nome por causa da animação entre os personagens: alegrias, brincadeiras. Ela detestava que falassem palavras de baixo galão na sua presença.

            Nossa professora de Teoria da Comunicação tentava se lembrar do nome de um pastor americano, que segundo ela, teria feito muito sucesso na televisão; um aluno, desastradamente tentou refrescar-lhe a memória:

Rin-tin-tin” gritou ele do fundo da classe, área tradicionalmente reservada aos menos aplicados nos estudos e berço dos piores disparates.

            Livros e mais livros poderiam ser escritos narrando as mais cômicas e absurdas situações das quais ninguém pode escapar, seja na condição de mero observador, protagonista ou antagonista. Os episódios aqui narrados tiveram como fonte de consulta as recordações deste que aqui escreve. Sabendo que a memória de muitos é extremamente eficiente quando se trata do vexatório, a coleta de material para uma enciclopédia não seria trabalho dos mais hercúleos.

            Volta e meia, ao me deparar com fatos cotidianos dos mais bizarros, me convenço de que o suprimento de besteiras cresce em progressão geométrica; este manancial abundante não há de secar tão cedo. Temo que esta epidemia se alastre, transformando em inofensiva gripe o que era considerado um temido câncer.

Dizer tolices no meio da rua, numa festa ou dentro do ônibus pode até parecer engraçado; mas quando a precisão no falar e no escrever é fundamental na profissão, os cuidados devem ser multiplicados. E como não pretendo abandonar este ofício, peço que Deus me ilumine para mim não cometer muitos erros. Perdão, para eu não cometer. Espero que não seja contagioso.