Com quem você pensa que está falando?
Aníbal Couto era daqueles sujeitos que não perdiam a oportunidade de falar sobre suas conquistas: profissionais ou amorosas. Quanto às amorosas, muitos duvidavam de boa parte delas; o pior é que o danado escolhia como vítimas aquelas para as quais ninguém se atrevia a perguntar sobre assunto íntimo. Não que fosse um sujeito muito feio, tampouco era um exemplo de beleza, o que irritava os colegas de trabalho era mesmo seu comportamento, dentro e fora das redações. Com o tempo a antipatia se estendeu para além das dependências do JB, onde entrou, segundo um de seus desafetos, por influência de um tio Deputado Federal por Minas Gerais. Aníbal teve rápida ascensão no jornal, e não havia tio Deputado, Senador ou até Presidente da República capaz de promover tal situação.
Com ou sem político influente na família ele subiu graças ao próprio talento; era um bom redator e repórter com faro impressionante. O curioso é que sua peculiar arrogância em muitos casos trabalhou a seu favor. Se ela afastava os colegas, jamais foi um entrave para conseguir boas entrevistas; não que ele se comportasse de maneira humilde com os entrevistados: políticos, esportistas e artistas; até pelo contrário. Acontece que seu ar afetado lhe conferia respeitabilidade e a muitos causava a impressão de estar lidando com alguém que saberia dar o merecido destaque ao entrevistado e seu trabalho.
Com o passar do tempo, servindo diversas editorias, Aníbal acumulou prêmios e deles falava com freqüência, o que era natural em um sujeito de seu naipe; não comentá-los é que seria motivo de espanto. Continuava solteiro e, segundo os próprios relatos, exímio conquistador. Não bebia e raramente saía com o pessoal da redação, a não ser a trabalho ou para festas com muito glamour, nelas sentia-se à vontade.
Uma publicação sobre comunicação decidiu fazer uma edição com expoentes do jornalismo impresso e uma matéria sobre Aníbal Couto foi sugerida. Apesar dos veementes protestos, foi aceita. O encarregado de entrevistá-lo, um rapaz iniciante que se destacava pela inteligência, rigor na apuração e primor no texto, marcou um encontro no restaurante do Hotel Glória. O rapaz ficou alegre ao notar o entusiasmo de Aníbal ao telefone:
-Será uma honra colaborar com uma publicação desta qualidade.
-Para nós também será uma honra contarmos com depoimentos de um jornalista de tal categoria e que muito contribui para o jornalismo impresso.
O astuto repórter havia sido alertado sobre o caráter do entrevistado e as recomendações unânimes diziam para não economizar no confete; Aníbal adorava uma bajulação mesmo que de forma descarada. Foi o que fez desde o primeiro contato; marcou a entrevista no Glória pois sabia que no Hotel Aníbal fez uma entrevista histórica com o presidente Costa e Silva; sempre falava dela com orgulho. Além do mais, o almoço do Glória era excelente.
Cláudio Dantas vestiu seu melhor terno e chegou dez minutos antes do combinado, o entrevistado era famoso por sua pontualidade entre outras características não tão respeitáveis. O dia estava quente e a piscina do hotel, ao lado do restaurante, estava cheia. Como nunca haviam se visto pessoalmente, assim que Aníbal chegou Cláudio levantou e fez um aceno com a mão, gesto que não foi correspondido. O semblante de Aníbal, que até então era sereno e jovial, transfigurou-se em um de espanto e irritação.
-Posso saber por quê o senhor acenou para mim?
-Muito prazer senhor Aníbal, meu nome é Cláudio Dantas, estou aqui para entrevistá-lo para...
-O quê!? E eu lá sou homem de dar entrevista para um repórter qualquer, o Antônio Dias deve ter perdido o juízo ao mandar um novato.
-Garanto que estou plenamente qualificado para fazer uma excelente...
-Escuta aqui garoto, sabe com quem está falando? Eu sou Aníbal Couto, o que já ganhei de prêmios você não ganhou em brinquedos, deveria estar brincando com eles agora seu moleque. Acha que este terno barato me engana, que pretensão achar que eu lhe daria uma entrevista, perder meu precioso tempo com esta palhaçada. Vou falar para o Antônio colocá-lo em seu devido lugar.
Atônito, Cláudio ficou imóvel por um tempo. Os berros a que foi submetido eram tão altos que até os hóspedes que nadavam no fundo da piscina foram à tona para ver o que estava ocorrendo no restaurante, os que lá almoçavam engasgaram com o salmão ao molho de alcaparra. Os funcionários do Hotel, não acostumados com tamanha baixaria, não souberam o que fazer.