BOEMIA, AQUI ME TENS DE RECESSO
Chega o fim de mais um dia estafante de trabalho, ele esperava sair as seis da tarde e já são dez da noite. Só levou quatro broncas do chefe da redação e o vereador que prometeu um furo de reportagem, simplesmente não deu sinal de vida; a única matéria que conseguiu terminar, por cautela preferiu não entregar, insinuaram que a fonte era suspeita e ele não queria dar barriga, não naquela altura do campeonato. A ex-mulher telefonou dizendo para ele não passar pra pegar as crianças porque elas tinham ganhado um videogame novo e estavam loucas para estrear. Sozinho, abandonado, e sem a mínima vontade de ir para casa; anos atrás ele não teria dúvida: City Bar. Mas hoje aquele bar só enche quando é dia da pindura, e o que é pior, de estudantes de direito.
Cadê os velhos amigos? Os que casaram, na certa com a família; os solteiros, talvez com as namoradas. E os descasados como ele? A última vez que ligou para seu velho amigo Alfredo, ele disse que marcou com uma garota; até aí tudo bem, mas marcar encontro numa sala de bate-papo na Internet era muito pra cabeça. O Nelson tinha se tornado publicitário e ultimamente andava desprezando os amigos jornalistas, “se vendeu para o sistema”, pensava ele. O Rogério, ultimamente só gostava de jogar squash, o que para ele era esporte de veado.
Tentou puxar na memória a última vez que tinha entrado num bar, e quando percebeu que havia voltado quase três anos, preferiu desistir. Mas por quê aquela vontade de reviver seus tempos de boemia? O pessoal da redação vivia falando em happy hour, o que para ele era o cúmulo do enquadramento: chegar num bar lá pelas seis e ir embora antes das nove. Não, ele queria a velha e boa Boemia com B maiúsculo, a dos velhos tempos; nem que para isso tivesse que entrar sozinho num bar e ficar puxando papo no balcão. Foi o que fez.
Ir para o City Bar seria saudosismo demais, ele não ia agüentar. Houve épocas em que brincavam com ele, dizendo que era parte da mobília, mas isso foi há muito tempo. Tinha um tal de Sintonia, mas aquilo era nome de bar de boiola. Aí ele lembrou dum bar onde havia ido numa das últimas vezes que saiu para beber. Triste decepção, agora no mesmo endereço funcionava um despachante. Resolveu guiar a esmo, e após meia hora de busca já pensava em desistir; mas um letreiro em néon lhe chamou a atenção: Álcool Íris. Que nome interessante, pensou.
O tal bar até que tinha uma decoração interessante, e não era muito iluminado, ele odiava ambientes muito claros. Não estava lotado nem muito vazio. Como não tinha a menor esperança de encontrar alguém conhecido, sentou ao balcão. Quando esperava a dose de uísque que havia pedido, começou a reparar nas pessoas. Na maioria das mesas havia casais. No mezanino havia uma placa de Cyber Café, assim que chegou o uísque ele subiu para matar a curiosidade. Para seu espanto, havia mais pessoas no tal de Cyber Café do que no resto do bar, a maioria homens; todo mundo sozinho. Uma moça se aproximou e começou a explicar o funcionamento: “Você escolhe um nick e loga com ele, aí você entra numa sala de chat ou num newsgroup, é fácil”. Aquilo era grego pra ele, só resolveu arriscar porque estava muito curioso.
Após logar com o nick que escolheu, entrou num site de chat. Era sua primeira experiência e estava ansioso. Descobriu que era simples, havia uma lista de todos que estavam na sala e a opção de falar no reservado. A cada instante surgiam novas frases na tela, eram trechos de conversas dos que não queriam falar no reservado. A conversa entre o camaleão com o predador lhe chamou a atenção:
Camaleão fala com Predador: Cara, ainda tô no trampo, pintou um pescoção.
Predador fala com Camaleão: Eu tô terminando uma matéria, mas o gancho
não tá legal.
Resolveu entrar no meio da conversa:
Lobo da estepe fala com Camaleão: Puxa, é a primeira vez que entro
numa sala de chat e encontro dois jornalistas.
Camaleão fala com Lobo da estepe: Oi colega, trabalhando também?
Lobo da estepe fala com Camaleão: Não, estou num Cyber Café,
saudades da velha boemia.
Camaleão fala com Lobo da estepe: Trabalha onde?
Lobo da estepe fala com Camaleão: Correio Popular.
Camaleão fala com Lobo da estepe: Puxa, eu tenho uns amigos
que trabalham lá, conhece o Pedro Cascadura?
Lobo da estepe fala com Camaleão: Puxa, há muito tempo alguém
não me chama assim.
Camaleão fala com Lobo da estepe: Pedrão, não acredito, você sumiu
cara, aqui é o Ernesto.
Lobo da estepe fala com Camaleão: Caramba, que coincidência,
viciado nesse negócio de Internet também?
Camaleão fala com Lobo da estepe: Por mim tava num bar, mas e companhia?
Lobo da estepe fala com Camaleão: Quem é o tal de Predador?
Camaleão fala com Lobo da estepe: O Juca, do Diário do Povo.
Lobo da estepe fala com Camaleão: Mas este mundo é muito pequeno, onde ele tá?
Predador fala com Lobo da estepe: Fala amigão. Tô terminando uma matéria
e daqui a pouco vou pra casa.
Lobo da estepe fala com Camaleão: Em plena sexta-feira? Não é o Juca
que eu conheço.
Lobo da estepe fala com todos: Pessoal, eu tô num bar chamado
Álcool Íris, vocês conhecem?
Camaleão fala com Lobo da estepe: Conheço, pertinho da prefeitura, né?
Predador fala com Lobo da estepe: Vai pedindo uma dose dupla
que eu tô chegando.
Camaleão fala com todos: Boemia, aqui nos tens de regresso.
Predador sai da sala
Camaleão sai da sala
Lobo da estepe sai da sala